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Dos meus cadernos de visões espaciais

o ano era de 2018, mais precisamente, fevereiro, em um planeta geoide, até que se prove o contrário. As bruxas podiam se equilibrar em suas vassourinhas livremente ao som do tamborim, sem temer fogueiras. E no meio de um bloco de Carnaval lotado, pessoas nadando entre as outras para chegar aos seus objetivos – que também podia ser objetivo algum -, não mais que de repente, pausaram o mundo:
– Opa, péra! Mas você está vestida de Wally? Você é mulher!
com o mundo ainda pausado, circundei imageticamente esta conversa. Tratando-se de Carnaval, julgava estarmos suficientemente verde-varonil para saber do que uma fantasia de trata. Sem reservas.
o que não me toca, não me desanima. É comum sermos podados pelas coisas de que gostamos, queremos andar com elas:
– Nossa, mas ninguém mais usa colete!
tenho uns quatro, ativos.
– Pochete é cafona!
sonhava ter uma quando criança, de couro, como a da minha irmã. Tive uma florida, que eu amava, mas anos depois. E as pastas-mochilas em que eu armazenava meus livros e cadernos dos 5 aos 8 anos? Lembro vivamente de cada bolso e de uma de suas divisas ser sem fundo, misturando os cadernos, pós separação em vão. [quem projetou isso?!, me perguntava ] Dessas coisas tão pequenas e ridículas, eu me criei.
dessas coisas desimportantes, os bolsos, transformei em objeto do meu TCC, em minha segunda pós-graduação. Virou meu TCC da vida. São dessas coisas que não fazem sentido que nos moldamos, catando mais ingredientes e trocando um punhado de açúcar pelo caminho.
se tentam nos apagar, esmorecemos. Viramos modelos pasteurizados. Copistas. Seguimos frases, roupas, ações, profissões prontas. “Vencemos na vida!”. Quando o ninguém sabe nada, mesmo que mostre e acredite, de verdade, saber.
hoje tenho calças e saias com compartimentos, com volumes diversos, coletes com bolsos camuflados, pochete atravessada no peito, em looks super sensacionais, bolsas que viram mochilas, que se retraem e estendem, tão qual meus pensamentos e a arara masculina é que mais me abraça: o ano todo, em um processo randômico infinito de encontros.
meus objetos não precisam de definição, nem eu de acabamento. Talvez por isso eu não tenha tanto afan em em “fantasiar”. Faço isso o ano inteiro. Visto-me de mim mesma, de possibilidades. Posso ser até um milho nesse Carnaval, que está lindo. \o
se couber, tô dentro. <3
Tatiana Vieira
Grafista