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Crónicas da vida real: a Ritinha foi viral

A educação escolar é imprescindível na formação de cada um pois representa a oportunidade de alcançar uma vida melhor, com mais oportunidades, dignidade, além de promover o direito de igualdade de oportunidades e desenvolvimento pessoal e profissional de cada indivíduo.

Por essa razão, pais, alunos, professores, autoridades, e sociedade em geral, têm a obrigação de assegurar o direito à escola e à segurança de alunos e professores no seu dia a dia escolar.

E isto, digo-o eu…

Sempre fui uma miúda muito introvertida, sempre ensimesmada na minha concha. A olhar o mundo por detrás destes olhinhos escuros, apreensivos, desconfiados. Às vezes parece que estou num medo constante, fragilizada por uma falta de autoconfiança. Quando sorrio, faço-o a medo, como que a apalpar terreno. Será que sim? Será que não?

Mas, e perdoem-me esta falta de modéstia, sei que sou uma miúda inteligente. Com um potencial dentro de mim, à espera de uma oportunidade para explodir, para se expandir, dar frutos.

Não me dei mal na primária. Cheguei lá encoberta pela minha concha e aos poucos fui saindo dela, passando mais vezes fora do que dentro.

Agora, no secundário, volto a refugiar-me ensimesmada na minha concha, a ganhar tempo e confiança com esse tempo.

Mas…isso não é nada bom Ritinha! Disseram-me. Não sei quem. Falavam-me e eu não via, apenas ouvia uma voz dentro de mim que parecia chegar-me através de uma consciência tão envergonhada e ensimesmada quanto eu. E a voz dizia… Os outros colegas não gostam. Principalmente os extrovertidos. Como lobos, conseguem sentir o cheiro do medo. Esse medo alimenta-lhes a besta que vive dento de cada ser humano.

O secundário passa a ser um outro nível na educação escolar de todos quantos o frequentam. Mais alunos, maior diferença de idades entre eles, mais classes, mais agitação.

O facto de eu ser uma miúda introvertida, sempre a procurar refúgio na minha concha onde espero não ser vista, notada, não faz com que esteja de alguma maneira protegida. Antes pelo contrário. Fiquei ainda mais exposta, porque denotei vulnerabilidade, porque o que de mais cruel que existe nos seres humanos, mesmo que por muito tempo se não manifeste, fica à mercê do medo que essa crueldade consegue cheirar. Uma espécie de cavilha retirada de uma granada que só não explode enquanto a mão a segurar firmemente.

E um dia…” Olha para isto…oleoso…não lavas o cabelo?”

E claro que lavo o cabelo. Depois desse dia e da humilhação e medo que trouxe, passei a lavar o cabelo antes e depois de ir para a escola.

E estas quatro raparigas, pouco mais velhas do que eu, e eu tenho 11 anos, ora uma ora outra, numa impetuosidade que lhes parecia despertar um certo prazer masoquista, que ainda hoje não compreendo, lá me passavam a mão no cabelo com brusquidão, outras vezes puxando-o quase de maneira violenta, para me dizerem que estava oleoso, que lhes sujava as mãos com a minha sujeira nojenta, e viravam a palma dizendo que os piolhos caminhavam nas suas mãos como batalhões de soldados em marcha.

E eu, Deus meu que nos criaste sem nos por um travão na quantidade de maldade com que somos capazes de nos manifestar, não via nada nas mãos delas, nem sujidade imunda, nem piolhos, apenas a humilhação que se espalhava pelos risos sarcásticos de outras alunas em volta delas, e eu que nem na minha concha me podia esconder porque de repente ficou tão pequenina que, apesar de eu me tornar pequenina também, não consegui lá caber.

A minha vida tornou-se um inferno tão grande, que desejei ferverosamente ficar tão doente, mas tão doente, assim o tipo de doença em que o médico chama os nossos pais ao lado, e quase nem coragem tem para expressar a gravidade do problema com palavras. Faz apenas um aceno negativo com a cabeça, aperta os lábios fechando a boca, e provavelmente levantará ligeiramente os braços, que é a sua maneira de dizer…” Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, a rapariga não está preparada para esta vida. Voltará para onde veio…para o nada. Para a inexistência.

Não são exageros de negatividade. O medo, a ansiedade, a espécie de agonia constante com que vivo, por ter que ir para a escola e enfrentar estas raparigas maldosas, tem tornado a minha vida num inferno.

E depois…veio aquele dia…” Tens piolhos? És nojenta…”

E já disse que não tenho piolhos não senhora. Já nem sequer lavo a cabeça só duas vezes ao dia. Lavo-a bem mais vezes. Gasto frascos de shampoo e ao mesmo tempo, sem sair de um problema entro diretamente num outro. Tenho que explicar à minha mãe o porquê desta “paranóia” de lavar a cabeça constantemente. Paranóia, é a palavra que a minha mãe encontrou para me confrontar por esta repentina rotina, e para a explicar desfaço-me em mentiras e desculpas que tenho dificuldades de manter convincentes.

“Olha esta cabeça…! Não lavas o cabelo? És nojenta…”

E sou puxada com violência pelos cabelos, e atirada ao chão com raiva, com desprezo.

As quatro raparigas juntam-se em círculo à minha volta e sou pontapeada, insultada, humilhada. Tiraram-me o telemóvel do bolso e com uma raiva que se não compreende, (eu não compreendo) esmagaram-no no chão. Quase instantaneamente, junta-se um aglomerado de alunos da escola, formando um círculo em nossa volta e forma-se um espetáculo, que é filmado por alguns elementos da multidão. Ninguém aparta, ninguém acode. Parecem divertir-se com a situação…

Fico ali no chão, enrolada como um caracol, a tentar proteger partes do meu corpo que acho mais vulneráveis, mas de facto, a partir de um certo momento, tudo o que faco, faço-o instintivamente, e isso inclui, não fazer nada, apenas enrolar-me num medo que deixou de o ser para mergulhar num vazio de sentimentos, apenas dor.

E através desse medo recuo no tempo, o quão longe me é possível recuar, dois mil anos, talvez mais, ali me encontro nos complexos e engenhosos subterrâneos da arena do Coliseu onde um cheiro nauseabundo a suor, sangue e medo, se espalha na atmosfera, de onde não pode escapar. E ali estou, qual Gladiador pronto a subir à arena e enfrentar as feras que me irão degolar e onde uma multidão de mais de cinquenta mil pessoas em fúria e excitação, a pedir sangue, a vibrar com a violência do espetáculo , de polegar para baixo, ansiosos e ávidos esperam que o Imperador também ele vire o seu polegar para baixo.

Dois mil anos… talvez mais, e mudaram os métodos, os cenários, mas os princípios são os mesmos. Dois mil anos… talvez mais… e quanto evoluiu a raça-humana Senhor?

Do Coliseu ficaram as ruínas, da arena os subterrâneos a descoberto, e a multidão divide-se, espalha-se aos milhares dispersa no conforto das suas casas, nos cafés, na rua, enfim…em qualquer parte onde haja acesso às chamadas redes sociais onde um vídeo da Ritinha, eu, satisfaz a curiosidade e até algum êxtase malévolo de quem sente prazer na maldade, e porque milhares de pessoas veem esse vídeo…a Ritinha foi viral.

Não sei quanto tempo levarei a recuperar deste trauma, mas peço-vos…a próxima vez que virem um vídeo destes na internet, não carreguem nele para o verem. Não há nada de nobre ou interessante em testemunhar o quão baixo um ser humano pode descer. Não alimentem essas pessoas que fazem qualquer coisa por mais um “like”. Desta vez fui eu que fui viral, amanhã quem sabe…alguém que vos é muito próximo.

Não o façam, não o façam por maldade, nem o façam por curiosidade.

Obrigado/a.