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Cantinho da Carolina: Regaleira, um palácio cheio de magia

Aqui no meu cantinho, imaginei-me à varanda do Palácio da Regaleira.

‘O que faria alguém rodear-se de tanto misticismo? De tantos rituais? De tantos deuses e fontes da sabedoria? O que faria alguém construir um Poço dos Iniciados?’

Depois de uma visita à Quinta da Regaleira, em Sintra, confesso que todo aquele cenário me deixou impressionada e… curiosa.

Quando pesquisei para escrever o meu romance sobre a Serra da Lua, deparei-me com a prática de diversos rituais realizados em grutas, pois estas estão ligadas ao regresso ao útero materno.

Seria essa a intenção do seu criador? Criar uma ‘gruta’, com algum drama, algum teatralismo, para realizar este ritual?

Quem tinha poder naquele tempo, construía Palácios e Palacetes, algo que pudesse mostrar ao mundo como era grande a sua riqueza, como era sumptuoso o seu império.

Mas, Carvalho Monteiro não mandou erguer apenas um Palácio neomanuelino, a celebrar a grandeza dos Descobrimentos, e da História de Portugal. Ele fez questão que este estivesse rodeado por jardins, grutas, capelas, e até um poço iniciático. Como se assim fosse o mundo ‘lá fora’: Um enredo misterioso, que se perde entre o cristianismo e o pagão, deuses que morrem e ressuscitam, sociedades templárias e maçónicas, cruzes de várias ordens, alquimias onde o espírito se materializa…

Esta Quinta passou por diversas mãos. Chamava-se Quinta da Torre, até ser adquirida pela Baronesa da Regaleira. Foi depois comprada por Carvalho Monteiro, que lhe deu a forma actual, segundo planos que encomendou ao arquiteto-paisagista Henri Lusseau e, posteriormente, ao arquiteto-cenógrafo Luigi Manini.

Foi este italiano que acabou por dar dimensão ao seu sonho. ´Aqui o Paganismo e o Cristianismo vão viver lado a lado,´ parece ter ordenado, ´aqui vai ser dada a Iniciação a todos os mistérios…´

Um caminho que vai das trevas até à luz, um jardim que não é obra do acaso, um poço que parece uma torre invertida, outras tantas torres na sua correcta posição, lagos e cascatas, galerias e túneis, labirintos, e até um poço Imperfeito.

Tudo baseado na crença que a terra é um útero materno, onde a vida nasce, mas também a sepultura para onde ela voltará.

E o batismo não foi esquecido neste ritual. Podemos encontrá-lo na Fonte da Abundância, é ela que nos remete para a purificação. À sua frente existe um espaço aberto com um grande banco em semicírculo. Conseguem imaginar a sociedade dos finais do séc. XIX sentada naquele banco de pedra? A quem estaria reservado o trono? E o altar? Que rituais poderiam contar?

Até as árvores e plantas estão ligadas a lendas e mitos, escolhidas pelos seus nomes, poderes terapêuticos ou até mesmo pela longevidade.

Outra analogia ao útero materno está presente no Portal dos Guardiões. Sendo uma estrutura cénica que permitia a criação de um Teatro, era também uma entrada simulada para o Poço Iniciático. Leva a meio do poço e está guardada por dois tritões. No meio destes Guardiões encontra-se um búzio, que tem dentro de si… outro buzio.

Talvez para contrapor a todo este paganismo – e não fosse a realeza contestar! – aparece a criação no ventre sagrado de Maria. Na Capela da Santíssima Trindade, a encimar a entrada, está representado o Anjo Gabriel a anunciar a Maria que espera um filho do Criador.

Manini começou como cenógrafo, mas como a polivalência não é coisa de hoje, esticou a sua actividade à decoração, à pintura e à arquitectura. Projectou o Palácio do Buçaco, decorou a sala do Teatro São Luiz e o Museu Militar, entre outras obras que ‘cantavam’ os Descobrimentos portugueses.

Talvez assim se justifique a influência manuelina no Palácio, e a influência cenográfica nos jardins.

Mas, porquê construir aquele poço?

Se o seu fim seriam as iniciações Maçónicas, o poço seria um local bastante ´teatral’ onde realizar o rito ligado à terra, de morrer e voltar a nascer.

Assim, quem descia os nove patamares do Poço Iniciático, ia descendo ao ‘inferno de Dante’, confrontando a sua alma, os seus pecados, as suas trevas, até encontrar ‘a luz’…

Nove patamares em espiral, com referências à Divina Comédia, que podem representar os nove círculos do Inferno, do Paraíso ou do Purgatório.

Saber quem saía por onde, talvez seja mais difícil, mas o significado figurativo pode dizer muito: há quem saia pelo Lago da Cascata, cheio de luz; e há quem termine no Poço Imperfeito, na escuridão 😉

Se Sintra é já por si a Serra Sagrada, o Monte da Lua, posso descrever a Quinta da Regaleira com um Reino Encantado.

Um reino que nasce no mundo subterrâneo e que faz a sua aparência à superfície, através de grutas e lagos. Mas, de modo grandioso e teatral, com torres e fontes da sabedoria, volta às trevas. Atravessa um dólmen com uma pesada porta de pedra, de abertura secreta, desce nove pisos de conhecimento interior, e termina numa ‘rosa templária’.

A seguir, terá de encontrar a luz e a pureza da água.

Um baptismo egípcio, num espaço cénico que recria o Éden, um jardim mágico repleto de deuses e lendas…

Vou, decididamente, voltar.