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Bloco capitalista

© Pixabay

Ricardo Robles não resistiu à tentação do capitalismo. Para a história ficará o contraste caricato entre o dedo acusador apontado aos especuladores malvados que expulsavam os moradores da capital e a cedência-relâmpago aos pecados do mercado, com uma eficácia digna dos empreendedores mais empedernidos. Públicas virtudes, vícios privados. Verdade seja dita, não é caso único. Os bancos e os conselhos de administração de empresas estão hoje carregados de antigos radicais que no PREC fizeram ocupações, nacionalizações, saneamentos e a reforma agrária de que, mais de 40 anos depois, o próprio Robles dizia ter muito orgulho, em discursos violentos contra o 25 de Novembro, na Assembleia Municipal de Lisboa. Em conjunto, em algum momento das suas vidas, viram a luz. Menos mal.

Relevante mesmo foi a reação de Catarina Martins. Defendendo publicamente a conduta do vereador lisboeta, transformou as suas fraquezas, na doutrina do partido, e aproveitando o “acampamento” do BE – onde entre outros disparates se discutia o tema “propriedade é roubo” -, para jurar que a propriedade do seu correligionário não tinha problema, nem significava especulação imobiliária, não se poupou sequer ao ridículo.

Recapitulemos: O bloquista que “pichava” as paredes de Lisboa com a frase “aqui podia morar gente” declarou rendimentos de 21 mil euros por ano, conseguiu da CGD, zurzida pelo BE como encarnação de todos os males, um empréstimo de 500 mil euros, adquiriu à depauperada Segurança Social, sem concorrência – coisa estranha -, um imenso prédio por 347 mil euros, recorreu a uma lei de arrendamento que dizia insensível e queria revogada, para despejar inquilinos e encerrar um café antigo, extinguindo vários postos de trabalho, ampliou o edifício com recurso a uma cobertura em mansarda, recusada pela Autarquia noutros licenciamentos sob argumento de “afrancesamento”, recolocou através da Christie”s, expoente máximo do capitalismo, por 5,7 milhões de euros, o prédio no mercado, publicitado com potencialidade de 11 apartamentos disponíveis para o alojamento local que condena, sendo que, cereja em cima do bolo, isento do “imposto Mortágua”, adicional do IMI aplicável a ricos, mais pobres que o Ricardo Robles.

Corram por isso a grafitar “aqui há facho”, no prédio do camarada, os que no BE, por muito menos, acusavam outros de “gentrificação, produto do urbanismo neoliberal” que “provoca a expulsão das classes mais vulneráveis”. E da próxima vez que ouvirem Catarina Martins falar sobre “mantos negros” e negócios privados riam muito. O caso não é para menos.