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Arroz de pato

Há dois anos, o pastor Humberto telefonou-me perto da Páscoa porque tinha um borrego para me oferecer. A mim essas coisas fazem-me confusão e nem ouso perguntar se o borrego está vivo ou não. Afinal, se o Humberto me oferece um borrego, porque carga de água iria matar o animal e tirar-lhe o pêlo? Andei ali uma semana a fingir que me tinha esquecido, até um dia ele me telefonou para dizer que ia matar o borrego de manhã, retirar-lhe a pele e que eu o podia ir buscar por volta das 11h. E lá estava eu à hora combinada, grande abraço e agradecimento da minha parte, e de facto o cadáver ainda estava quentinho. A mim acontecem-me às vezes coisas estranhas! De facto, não é muito agradável fazer uma viagem com um borrego quente e esfolado, não é que ele seja má companhia, apenas não fala muito e pinga sangue para os tapetes do carro.

Eu tenho algumas fobias, e três delas é com animais: sou incapaz de pegar num peixe vivo; não consigo mexer em penas de aves, e a terceira já não me lembro.

De maneira que quando a minha mãe me disse que me ia oferecer um pato, não me soube garantir se o pato que me ia oferecer estaria vivo ou não! Eu tenho cuidado com estas ofertas! Passadas umas semanas telefonou-me assegurando que tinha contratado um matador de patos, mas que não tinha certeza que os depenava. Desviei a conversa para a parte do tempo e que o clima estava a mudar, e que a culpa é dos homens que andam a mexer nas estrelas.

Claro que eu não tenho credibilidade nenhuma junto da minha mãe, pelo menos ao telefone! Não sei porquê, mas gosto, e sempre que telefono para a minha mãe, para o telefone fixo, disfarçar a voz de fulano da Telepizza ou de outra coisa qualquer como por exemplo o de Grande Vidente Karamba! A última foi muito interessante, em que fiz voz de funcionário da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa a perguntar-lhe porque é que ela ainda não tinha levantado o segundo prémio do Euromilhões que ela tinha ganho. Também já lhe telefonei querendo falar com um filho dela, um tal de Pedro Guimarães.

Ser mãe não é nada fácil, especialmente quando se tem filhos um bocadinho parvalhões, e eu e os meus irmãos nascemos com esse dom. Apenas não sabemos matar e depenar patos. A nossa mãe é uma pessoa inteligente, culta e com uma sensibilidade estética e plástica muito apurada, e certamente nunca apanhou um 1 ou um 2 a Desenho ou a Trabalhos Oficinais como aconteceu à prole que criou. Ainda hoje tenho saudades do tempo em que a minha mãe se dedicava à pintura e fazia obras-primas. Já o meu, ideólogo da bricolage, certamente saberá matar patos com uma motosserra, e com depenação incluída.

Fazer um arroz de pato não tem segredo nenhum: coze-se o pato, depois desfia-se o pato, faz-se o arroz com a água onde o pato cozeu. Com o pato desfiado elabora-se um refogado! Uma camada de arroz para acamar, depois o pato desfiado e devidamente refogado, uma segunda camada de arroz por cima, no topo, fatias de bacon e chouriço.

Depois leva-se ao forno 15 minutos a 220 graus.