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Amadeo, o pintor emigrante, morreu há um século

Fernando Pessoa falava em 1906 de Amadeo  Souza-Cardoso como “o mais célebre pintor avançado português”.

Almada Negreiros, quase iniciante, afirmou em 1917 na revista “Portugal Futurista” que estávamos perante um “génio”. Parte da elite portuguesa olhava-o com expectativa, porém, Amadeo iria em breve engrossar a lista de milhões de vítimas da pandemia de gripe espanhola de 1918 – morreu a 25 de outubro, há precisamente um século – e essa promissora carreira de mais de 500 obras em escassos 14 anos, com enorme reconhecimento em França, na Alemanha e nos EUA, ficará esquecida por muitas décadas e ainda agora renasce desse trauma.

Natural da pequena aldeia de Manhufe, concelho de Amarante, Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918) foi um dos mais fulgurantes artistas do século XX,  próximo dos movimentos artísticos de vanguarda e interessado em experimentar linguagens de todos eles, mas teimosamente determinado em ir mais além.

Terá sido impressionista, cubista, expressionista, futurista – quase tudo ao mesmo tempo.

“Surge hoje como referência familiar devido à redescoberta iniciada há pouco mais de três décadas, ainda que sobre ele continue a pairar um “círculo infernal de eterno esquecimento”, expressão de Helena de Freitas, historiadora de arte na Fundação Gulbenkian e curadora da grande retrospetiva de 2016 no Grand Palais, em Paris.

Amadeo veio ao mundo a 14 de novembro de 1887, filho de Emília Ferreira Cardoso e de José de Souza-Cardoso, grande proprietário rural e viticultor. Passou a infância com os oito irmãos entre Manhufe e Espinho e cedo mostrou apetência para desenho, a começar pela caricatura. Manuel Laranjeira, pouco mais velho que ele, foi um dos amigos que mais o encorajaram. A família também. Estava destinado a ser arquiteto e mudou-se para Lisboa aos 18 anos, em 1905, para estudar na Academia de Belas-Artes. Simplesmente, “desinteressa-se do ambiente da capital e nem é estudante de boas notas”, aponta Catarina Alfaro. Encontra em Lisboa os mesmos vícios do Porto e terá dito isso mesmo a Manuel Laranjeira, mais tarde médico e escritor, ao que este lhe responde numa carta de 1905 que a “futilíssima vida lisboeta” era “boa para pelintras e mariolas”. Por óbvias razões, e porque tinha dinheiro para isso, em 1906 ruma a Paris. Com ele segue Francis Smith, poeta e pintor de origem inglesa nascido em Portugal.

Paris será uma segunda casa para o artista amarantino, oito anos de fulgurante projeção que hão de acabar em 1914, quando rebenta a I Guerra Mundial e regressa às origens. “Não esteva nada distraído nesta fase”, explica Helena de Freitas. “Pouco se dava com os artistas portugueses em Paris, mas também não os desprezava”.