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Opinião

“Crítica da Ração Podre”, de Manel Kantinas* – breve metacrítica

Até Manel Kantinas, tínhamos as cozinheiras e a comidinha confeccionada na escola. Os tradicionalistas defendiam que o uso de um bom fogão levava à elaboração dos pratos mais saborosos e saudáveis do mundo. Por sua vez, para os liberais o sabor provinha das ondas electromagnéticas do micro-ondas as quais têm entranhado o sabor de todos os alimentos do mundo, mais coisa, menos coisa. É aqui que surge Manel Kantinas com o seu “Cruismo Transcendental”: a teoria Kantiniana do Cruismo Transcendental afirma que quer o fogão quer o micro-ondas são necessários para fazer chegar os alimentos em condições aos alunos das escolas do país. Só que não é condição necessária que fogão e micro-ondas estejam juntos para que a refeição chegue em condições aos seus destinatários. Até podem estar a muitos quilómetros de distância. O problema maior é que quando a distância é grande, parece que o tempo anda para trás ao ponto de descozinhar os alimentos, uma espécie de “teoria da relatividade” de Einstein, mas em versão ainda mais acelerada, tipo “teoria da indigestibilidade”.

Outro postulado importante na teoria Kantiniana deriva do facto do seu autor ter iniciado a sua carreira como professor de Ciências Naturais, o que explica a sua paixão por lagartas, paixão esta que é aliás partilhada nas ementas das sopas e saladas que Manel Kantinas partilha com os seus leitores precisamente em “Crítica da Ração Podre”. O autor aconselha mesmo os alunos a fotografar as lagartas antes de as comerem e a partilhar as fotos nas redes sociais, uma vez que Kantinas é adepto ferrenho do Sporting Clube de Portugal desde que deixou de usar fraldas, ou seja, desde os 12 anos. A este postulado, de fotografar a lagarta antes de a comer e partilhar a foto nas redes sociais, chama o autor de “Postulado Aproveita Que Não É Todos Os Dias Que Comes Carne” ou simplesmente “Sushi lagarta”.

Como em qualquer teoria, também esta tem paradoxos, e aquele que mais relevo assume chama-se “Eu é que sou o director da escola! Eu é que devo aparecer na foto!”. Este paradoxo pauta-se por uma inveja verde como a lagarta por parte do director da escola em relação ao mediatismo que a lagarta assume nas redes sociais, levando mesmo à instauração de processos disciplinares sobre os autores da foto do pobre bicharoco a pretexto do argumento de que é proibido tirar fotografias no interior do estabelecimento. Ora este argumento é facilmente desconstruído e rebatido na medida em que se sabe que a comida que entra na cantina da escola é toda ela fornecida por empresas de catering 100% exteriores ao estabelecimento escolar. Logo é mais do que certo que a lagarta assim como a sopa ou a salada onde o pobre bicho se encontra são praticamente externos à escola!

Manel Kantinas situa a emancipação e educação do ser humano na base do seu ecoponto, ou seja, na capacidade que ele tem em reciclar e reaproveitar restos. Não é, portanto, de admirar que vários alimentos em decomposição e em pleno estado de putrefação, tenham sido encontrados pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, em cantinas e refeitórios escolares. Diz Kantinas na sua obra: “Não coloca o agricultor na sua horta estrume de porco e de vaca para colher daí viçosos e saudáveis legumes? Porque não fazê-lo também nas cantinas escolares com alimentos em fim de vida ou mesmo putrefactos?” Como se vê, os elementos da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica têm falta de ler Kantinas, o filosofozeco mais lido e seguido no Ministério da Educação, em geral, e por quem gere as cantinas portuguesas, em particular.

Para Manel Kantinas, o enriquecimento verdadeiro só é possível pela conjunção entre pilim, proveniente dos contratos com o Ministério da Educação, e poupança no gás, que são as categorias da burla e do charlatanismo. Assim, Kantinas propõe outro postulado intitulado “Come frango cru e não te Queijas”. Este postulado assim se chama em resultado de um prato com frango cru que terá sido servido a crianças na escola EB 2,3 Noronha Feio, em Queijas, concelho de Oeiras. E foi um episódio feio, foi sim senhor, consideram os pais e encarregados de educação dos alunos. De acordo com a doutrina Kantiniana a carne não estava crua, a carne apenas não estava cozinhada conforme as nossas expectativas prévias, na medida em que não nos podemos deixar influenciar por uma experiência que advém somente da pura visualização da ração supostamente impura.

Já sobre a rataria que tem sido encontrada nas cozinhas dos refeitórios escolares, Manel Kantinas é muito claro: “Uma casa sem ratos é vazia, as cantinas sem imundície são antinaturais”, resumindo-se assim a sensibilidade e estética transkantinental deste grande filosofozeco que advoga que o espaço e o tempo foram feitos para comer e beber à fartazana sem que se pense em mais nada e muito menos nas condições de criação da comezaina porque “muita crítica, pouco juízo!”, diz Kantinas.

*Manel Kantinas – filosofozeco delgadinho de pensamento, zelador da saúde dos cidadãos da república das bananas, dos incêndios e da ‘legionella’.

Texto de ficção e humor de Daniel Luís